Monday, February 25, 2008

Os mortos

Já se disse, e se dirá cada vez mais, que um dos grandes problemas do nosso tempo, e um problema ainda maior do tempo que virá, é o de não sabermos o que fazer com nossos mortos. Com uma indiferença que só a morte proporciona, eles se acumulam inexoráveis no porão ignorado da história. Esse problema, reverso obscuro da moeda cujo anverso reconhecemos e orgulhosamente exibimos como nosso, ganha outra dimensão, maior, mais assombrosa, nesse outro mundo que não sem ironia e com certa dose de cinismo batizamos de virtual. Nele, nossos rastros são --paradoxalmente, é claro, dada a sua suposta irrealidade-- mais visíveis e mais duradouros. Vejamos um exemplo concreto: digite-se um nome, o meu talvez, no Google. Imediatamente, incontáveis rastros, vestígios esquecidos ou por esquecer, surgem, lázaros iluminados, sem que nada se possa fazer para exorcizar sua aparição.

Pergunto-me o que será desses rastros daqui a duzentos, trezentos anos, quando eu não estiver mais aqui para segui-los. Quem sabe, no ano 2208, talvez numa tarde como esta, alguém, por ócio ou curiosidade, digite a combinação secreta que lhe dará acesso a cinzas há muito esquecidas, a fantasmáticos mundos que no entanto insistem em permanecer: 'brenno kenji'. E os rastros desse que há muito não é surgirão ainda frescos, luminosos como se fosse ontem, como se fosse hoje e ainda agora que eu estivesse digitando, entre restos idos e por vir, esta elegíaca reflexão para o futuro.